domingo, 4 de novembro de 2012

“Entrevista com Thaís”: subjetividades de uma ex-normalista.


Thaís de ex-normalista à futura produtora cultural

O artigo apresentado faz parte do método de avaliação da disciplina Magistério das disciplinas pedagógicas do Ensino Médio, ministrada pela Professora Gelta Terezinha Ramos Xavier e tem como proposta, verificar a aprendizagem da fundamentação teórica no qual se construiu o conteúdo da disciplina em relação à realidade das práticas curriculares e profissionais durante a formação docente no magistério. Acredito que a atividade proposta foi importante na medida em que ofereceu uma ótima oportunidade para conhecer um pouco mais sobre a realidade das normalistas e com isso exercitar a minha consciência para uma pesquisa crítica e refletida teoricamente.
Para isso, introduzimos o método da entrevista e realçamos nosso olhar antropológico para as falas de nossos (as) entrevistados (as) que externam vivências diversas, culturalmente construídas e ricas de práticas socializantes. Durante as entrevistas não é difícil encontrar diferentes desvios que se aprofundam em abordagem que poderiam ser tomadas ou não, segundo o critério de foco de cada pesquisador.
A princípio tomei como abordagem principal analisar as razões que motivam uma normalista a não seguir com sua carreira de formação, pois, estabelecer este tipo de interrogação além de trazer ao meu conhecimento um estudo que há algum tempo já pensava em realizar me faz pensar também, nas pessoas que, como eu, fazem o caminho inverso, ou seja, passam anos buscando certo tipo de formação e acabam optando pela carreira na educação. E ainda, a abordagem além de otimizar meu tempo, pois tinha somente uma pessoa acessível para ser entrevistada e para melhorar, a pessoa em questão não seguiu na carreira do magistério.
A revista realizada informalmente através de uma conversa gravada demorou cerca de uma hora, primeiramente solicitei que Thaís, uma jovem de 20 anos de idade, branca, de classe média, moradora do município de São Gonçalo, região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro e estudante, prestando exames de ingresso para Produção Cultural, escrevesse em meu caderno seus dados básicos e de sua formação, logo me surpreendo ao constatar que Thaís, começou sua formação na escola pública Instituto Clélia Nanci, onde cursou o primeiro e o segundo ano e concluiu o terceiro ano em uma escola particular Colégio Santa Catarina, ambos em São Gonçalo.
Interessei-me em saber o porquê da mudança de escola no último ano e daí, sua fala começou a me despertar para novas possibilidades de foco.
Em seu relato Thaís informa que se matriculou no Instituto Clélia Nanci porque sua mãe além de não querer mais pagar os seus estudos e queria que sua filha ainda sim, obtivesse uma boa educação e segundo princípios baseados no senso comum, “diziam” que o Instituto Clélia Nanci seria uma boa escola. Disse Thaís, que sua mãe também pensava que a profissão era “bonita” para a mulher, ou seja, idealizava o magistério como uma profissão própria aos dotes femininos. Nesse momento, percebo que Thaís espontaneamente diz: “Acho que foi por isso que minha mãe insistiu para que eu fosse para o “Clélia”, sempre fui meio “homenzinho”, com brincadeiras brutas de menino e acho que minha mãe queria que eu ficasse mais feminina.”
Logo, inevitavelmente, percebo outra possibilidade de foco nas questões de gênero e incluir também elementos de pesquisa histórica para discutir a feminização do magistério frente às culturas juvenis e currículo.
Continuo a entrevista e retornando ao ponto de origem insisto no questionamento sobre a mudança de escola e ela diz que mudou, pois, interessou-se em prestar o vestibular para produção cultural e segundo seus amigos, a escola particular daria mais recursos ao seu objetivo e afirmou: “- O Clélia estava uma bagunça!” Logo em seguida, Thaís parece refletir sobre o que disse, mas retorna ao assunto complementando com mais uma informação: “ – Engraçado essas coisas né?! Apesar de todos os problemas do Clélia Nanci, foi o único lugar em que pude estudar na companhia dos rapazes, pois no Instituto Santa Catarina não aceitavam a matrícula dos meninos.”
Sabendo de sua mudança de curso com o objetivo de prestar vestibular para outra carreira, iniciei uma série de indagações sobre os motivos de não continuar no magistério, peculiarmente Thaís conta que despertou para a produção cultural enquanto estagiava na educação infantil, pois, sempre participava as organizações teatrais e atividades de festa e musicais com as crianças e ao mesmo tempo a não-aceitação de suas colegas de normal, evidenciava estar “fora do perfil“ de professora. Com relação a essa exclusão, a jovem relata que devido a sua personalidade contestadora, suas vestimentas em um estilo mais moderno, a utilização de tatuagens e alargadores, contribuíram para certa “marginalização” dentro da escola: “não era vista com bons olhos”, mesmo sendo uma das melhores estagiárias em nível intelectual e profissional, como também na socialização com as crianças, se considerava afetuosa.
Insisto no assunto sobre sua “atitude contestadora” e a mesma conta que achava um absurdo e injusto para algumas crianças, ter que rezar a “ave-maria” e o “pai-nosso”, pois sabia da constituição familiar delas e que não aprovariam uma imposição cristã sobre suas vidas e mesmo católica, com a obrigatoriedade da “ave-maria” e por vontade própria resolveu mudar e na hora das orações ela não o fazia com as suas turmas e ao invés disso, cantavam a música do “lanchinho”.
Entre suas experiências como estagiária, a questiono se não havia momentos positivos em que talvez a fizessem pensar em continuar no magistério, ela responde que sim e relata que o melhor da profissão era “ver as crianças chegarem à escola sem saber andar e falar e saírem no final do ano, correndo, cantando e o melhor, dizendo o meu nome. ”Em seguida ela espontaneamente esbraveja: “Como é possível alguém deixar um bebê na escola que não sabe falar e nem andar?!”
Para encerrar a entrevista, peço que me conte sobre o que quiser e ela curiosamente relata um episódio, a seu ver, engraçado. Quando muitas crianças da pré-escola com idades entre 2 e 3 anos, consideradas as mais “levadas”, se jogaram na lama do pátio onde brincavam e que parecia estarem comendo biscoitos de chocolate, as estagiárias, incluindo Thaís, ao se aproximarem do grupo perceberam que não estavam comendo chocolate e sim as fezes da fralda de uma delas. Foi um verdadeiro “pandemônio”, todas correram para lavar as crianças que segundo, Thaís, “comiam cocô da fralda mais fedorenta de todas”.
Finalizamos a entrevista com muitas risadas em um clima tranqüilo que fez com que a partir das leituras realizadas durante o curso de disciplinas, realizasse algumas análises sobre os relatos das práticas de Thaís. Mesmo já ricas em conteúdos de vida, necessitam de reflexão teórica que me possibilite pensar a realidade de uma maneira crítica.
De início, pensando a subordinação da jovem aos princípios do senso-comum, que, no entanto tem suas bases na história social evidente no cotidiano de muitas famílias, que ainda acreditam na mitologização da maternidade restrito ao gênero feminino, assim como esse princípio pode desvalorizar profissionalmente a professora, enquanto “tia”, “responsável pela primeira formação do homem”. É o que nos expõe a fala de Thaís sobre os anseios de sua mãe ao desejar que sua filha se torne mais feminina a partir da escolha de sua carreira como professora. Este fato é observável, de acordo com Leonor Maria Tanury, desde surgimento de um fenômeno conhecido como “Feminização do Magistério”, quando as mulheres, por necessidades da nova realidade capitalista, que faz os homens migrarem para profissões mais vantajosas no final do século XIX e abrem espaço para as mulheres que, apoiadas pelo mito do “dom materno” encontram possibilidades no mercado de trabalho através do magistério.
Em seguida, verifico a preocupação da jovem em identificar-se enquanto sujeito na profissão escolhida pela mãe, que mesmo gostando do estágio e das crianças, não deseja seguir em frente, não se reconhece no magistério e a partir disso, remeto-me à Gelta Teresinha Ramos Xavier em sua interpretação de Lukács em que afirma que a posição de optar ou se abster de uma atuação toma sentido de negação ou afirmação de “determinada situação, estrutura, instituição, lugar e tempo”, ou seja, são os fatores que contribuem para a nossa escolha e no caso a de Thaís, em que sua realidade e condições materiais e suas relações sociais são determinantes para realizar uma mudança de opção.
Ainda em Lukács, percebemos nas experiências da jovem Thaís, uma relação estável de seu trabalho como estagiária na educação infantil e a formação de uma consciência crítica quanto às normas estabelecidas, o fato de sua não-identificação com a profissão e o fato de ser discriminada por ser diferente, por não se enquadrar-se dentro de um perfil socialmente imposto somado a isso, suas vivências e sua formação identitária acabam por direcioná-la para outras opções que, de acordo, com suas expectativas, poderia ser mais bem aceita e desenvolver suas capacidades intelectuais e culturais.
Sendo assim, houve uma reorganização de suas escolhas que a fizeram repensar sua vida e suas manifestações enquanto sujeito no mundo do trabalho e em suas relações sociais, inclusive familiares.

Considerações Finais
Escrever este texto ganhou uma dimensão um tanto diferente em meus estudos durante o curso da disciplina de Magistério, primeiramente ao analisar a realidade a partir da realidade de uma jovem normalists durante o contexto da “era Lula”, em que sua faixa etária representava cerca de 30% da população brasileira, mesmo pertencente a uma faixa privilegiada economicamente onde constavam cerca de 60% de jovens brancos matriculados no Ensino Médio. Sendo, na época, uma das 40.000 estudantes no Curso Normal em uma das 96 escolas da rede pública do Estado do Rio
Assim como todos os matriculados no Curso Normal, Thaís passou pelas 5.200 horas-aula abrangendo um currículo que, segundo, sua opinião seria insuficiente para adequar os futuros professores a realidade educacional. E mesmo não se encontrando na profissão que se preparava, terminou o curso por motivações familiares.
Nos dias de hoje, Thaís, continua estudando para entrar na faculdade e enfrenta uma terrível e injusta competição para alcançar o ensino superior a profissão que deseja, enquanto isso, precisa trabalhar, porque apesar de ter uma família economicamente estável, prefere “ganhar seu próprio dinheiro”, inclusive para se locomover. E ainda, continua contestadora, com valores familiares arraigados e uma visão crítica da realidade que a cerca.
Com todas essas premissas, acredito que meu questionamento mais complexo seria: Como a sociedade pôde dispensar tão facilmente uma jovem que enriqueceria tanto a vida de nossas crianças?

Bibliografia


XAVIER, Gelta Terezinha Ramos. Trabalho, culturas juvenis e currículo
- Currículo, formação e trabalho docente: entre tradições, costumes e leis.

COSTA, Gilmaisa Macedo da. Lukács e as funções da consciência na reprodução social.Outubro. Revista do Instituto de Estudos Socialiastas. Editora Alameda. n° 19. Campinas, 2011.

TANURY, Leonor Maria. História da formação de professores. Revista Brasileira de Educação.n° 14. Maio, junho,julho e gosto, São Paulo. 2000.